A lógica da castração e a confusão da promessa do Um, nas neuroses.
- carol tranquilin
- 24 de abr.
- 3 min de leitura
Lacan, no início de seus seminários, oferta algumas aulas (mais especificamente no Seminário 5) sobre a Lógica da Castração. Apesar de utilizar a lógica no próprio nome da sessão das aulas – esse é um dos seminários que Lacan aprovou o que Miller escreveu e como formatou - e construir ali a Metáfora Paterna, o ensino ainda é bastante apoiado na linguística e em seu estruturalismo, além de também estar presente um “retorno a Freud”, que maquiava a construção de conceitos novos (ou seja, a criação de conceitos lacanianos) em conceitos já existentes (como se fossem leituras de conceitos do Freud).
O autor, devido a um momento histórico-político-social, ainda vinculava bastante de sua teoria à teoria freudiana, afirmando, nas entrelinhas – e não só nelas -, que os pós-freudianos estavam fazendo uma leitura errada da escrita freudiana e que ele estava ali, em seu ensino, colocando a sua leitura da mesma.
Já mais adiante, após o seminário 9, Lacan começa a recorrer à matemática de maneira mais frequente e o estudo da lógica e de autores desse campo aparece (subvertida e moldada, como tudo que Lacan usa) muito mais explicitamente e presente nos seminários.
Talvez uma leitura mais freudiana da próprio conceito de castração nos faça supor que em algum momento fomos completos, que houve um tempo de um êxtase da completude, de Um todo. Esse momento é puramente mítico em Lacan e construído pelo corte lógico do antes e depois de notar a falta. Um raciocínio que passa pelo “já que me sinto faltante agora, em algum momento fui completo” ou “já que notei que minha mãe faltou, houve um tempo em que ela não faltava”. Uma ideia mítica que surge a partir de um corte lógico e que faz a construção de dois tempos: o tempo de antes (todo) e o tempo de agora (castrado).
É importante estar advertido, a partir de uma leitura pautada no RSI, que há uma falta como radical e anterior, logicamente, à ideia da castração ou ao Complexo de Édipo. Esse mito, imaginário, que Lacan traz para o simbólico com a construção da Metáfora Paterna, também surge na tentativa de dar conta de um desamparo, da ordem do Real, inerente a qualquer ser falante. O sujeito de Lacan é sujeito barrado não só porque foi castrado pela ausência da mãe ou pela lei do pai, mas sim pela castração que opera a entrada do sujeito do campo da língua. A relação do desejo com seu objeto estrutura-se na dependência da língua.
Há uma pergunta subentendida da entrada na linguagem, que se dá nessa ausência da mãe, que é, como diz Michele Romam Faria “o que eu vou fazer com essa angústia primordial de desamparo que eu vivo quando me dou conta de que eu não sou tudo pro outro e o outro não é tudo pra mim?”. O que eu faço com a informação de que com dois não se faz Um?? É o sujeito se constituindo a partir de uma negatividade.
A castração é uma maneira de tratar, simbolicamente, algo do real (o desamparo), é um recurso da neurose frente à angústia do real.
O neurótico se queixa da sua impotência em nossos consultórios porque a impotência é resolvível e não diz de uma impossibilidade, que seria o que está relacionado com a falta da ordem do real. A neurose, diante da ausência e do desejo, vai localizar um objeto fálico, que seria capaz de responder pelo desejo do Outro e supõe que, se estiver nesse lugar fálico, resolverá a castração.
A neurose sempre vai produzir um se queixar sobre a castração, seja pela via histérica de manter o desejo insatisfeito, seja pela via obsessiva de manter o desejo no impossível, o texto vai sempre mostrar um “não quero, não consigo”, seja ele acompanhado de um “por culpa minha” ou “por culpa do outro”.
Cabe a nós, enquanto analistas, ouvirmos essa impotência gritada no texto – assim como a potência requisitada - como algo que recobre a impossibilidade. Lermos o simbólico que conseguimos, a partir do imaginário, para assim encontrarmos a impossibilidade daquele caso, enquanto real.
Estarmos atentos de que na própria relação de transferência há um terceiro incluído e que também ali, com dois não se faz um, é importante. A transferência é estabelecida a três: um sujeito barrado, um objeto e o Outro, desviando da ideia de intersubjetividade na cena analítica.
Driblar os efeitos de um discurso neoliberal, que parece prometer o alcance de um todo, com foco na eficiência de um sujeito que não aparece como dividido, faz parte da nossa práxis. As ideias de um indivíduo empreendedor de si mesmo e que alcança seus objetos de desejo com o próprio esforço vem na contramão do que a psicanálise lacaniana propõe, enquanto, inclusive, possibilidade de existência – já que a própria possibilidade de existência parte de uma negatividade.
Comentários