Sujeito, desejo e falta
- carol tranquilin
- 27 de mar.
- 4 min de leitura
PERGUNTA: “o Desejo não é individual, deseja-se”; “não é possível delimitar o que determinada pessoa deseja” (ponto abordado no primeiro ou segundo encontro); eu fiz uma anotação desse trecho e aí fui reler e fiquei com dúvida com a relação desse desejo amplo e a singularidade de cada um.
Partindo dessa pergunta realizada por uma das participantes do grupo Lacaniar desde o início (meu querido LDI), segue meu raciocínio habitual de “hablar y hablar”, mas por escrito:
Qual a relação de um desejo que “HÁ” e não “É” de alguém e a singularidade de cada um???
Lacan constrói uma conceituação de sujeito muito diferente das estabelecidas até então. Ele não lê o sujeito como um indivíduo, como um ser orgânico e indivisível, mas também não o entende como o ser da filosofia e apresenta pra nós, já apoiado nas construções freudianas, o sujeito dividido, sujeito enquanto efeito da cadeia significante, ou seja, sujeito produto da linguagem.
Ao pensar num sujeito dividido, entendemos um sujeito que é para sempre marcado pela lógica significante, mas o que isso tem de relação com o desejo e com a ideia do desejo não ser DE alguém, no sentido de pertencimento individual?
Primeiro, é importante lembrar que Lacan faz uma distinção e ao mesmo tempo coloca em relação os conceitos de necessidade, Demanda e desejo, sendo a necessidade pura convertida em demanda a partir do momento em que somos seres falantes. Essa conversão faz restar algo, já que a demanda também não é completamente atendível, e o que resta dessa conversão de necessidade em demanda é o desejo.
Então já temos notícias de que o desejo, para Lacan, apesar de estar em relação, é diferente de uma necessidade (a de comer, por exemplo) e também diferente de uma demanda (que tem como um sinônimo, pedido).
No seminário livro 5, lição O desejo e o gozo, Lacan comenta que aquilo que podemos entender como a compreensão de uma estrutura subjetiva num processo de análise é “sempre algo que nos mostra o sujeito empenhado num processo de reconhecimento enquanto tal.” Entendemos então que o sujeito, enquanto efeito de linguagem, já surge junto com a tentativa de se contar, se dizer, se significar e se fazer existir no campo do Outro, nesse campo onde o sujeito é chamado a comparecer.
Desde que colocado num mundo de linguagem, um ser falante está fadado à pergunta: Quem sou eu no seu desejo?
Lacan segue nos dizendo que essa necessidade de reconhecimento (e acredito que podemos ler aqui um reconhecimento de existência mesmo, além de um reconhecimento de equivalência com a própria versão que imaginariamente temos de nós), o sujeito é inconsciente e é por isso mesmo que devemos situá-lo numa alteridade de um teor que, até Freud, não conhecíamos. “Essa alteridade prende-se ao lugar puro e simples do significante, pelo qual o ser se cinde de sua própria existência.” - isso ainda no Sem 5.
É como se o próprio ser abrisse mão da possibilidade de só ser, já que para ser na linguagem, eu preciso me dizer e me dizer como um todo é impossível.
Ao se ligar a um signo e tentar dar significação ao seu ser, o sujeito desliga-se de si. E como existência, o sujeito vê-se constituído, desde o início, como pura divisão, já que seu ser tem que se fazer representar em Outro lugar (no código, em A). Sem essa decomposição de sujeito nem poderíamos pensar na ideia de inconsciente (palavras de Lacan).
E no que essa tentativa de existir do sujeito tem relação com o desejo? O discurso inconsciente não é a última palavra do inconsciente, ele é sustentado pelo que é de fato a mola última do inconsciente, e que não pode ser articulado senão como desejo de reconhecimento do sujeito, reconhecimento do sujeito enquanto desejo de.
Tentando tornar a coisa mais simples... todos nós, seres falantes, nos relacionamos com a linguagem e no mundo da linguagem tentando nos contar como alguém, como alguma coisa, como aquele que o outro deseja, mas pra isso, pra que possamos ser reconhecidos até mesmo como existentes, precisamos falar e nos significar. Triste e feliz notícia: esse reconhecimento nunca vem, essa significação nunca cessa, o que abre espaço pra esse movimento continuar. O desejo é metonímico.
Esse desejo “amplo” referido na pergunta que disparou esse texto, o desejo enquanto conceito da psicanálise lacaniana, que configura a afirmação “desejo é desejo do Outro”, passa longe de ser um querer individual, de uma vontade ou um movimento de sonho e rompimento com as vontades de outros pares, ele está mais próximo da busca de reconhecimento da sua própria existência, um movimento sustentado pela própria falta de um significante exato que me diga quem eu sou, é, como comento no início do texto, resto do efeito da fala sobre as necessidades.
Se o mundo da linguagem não fosse atravessado pelo efeito significante, se fazer UM fosse possível e se pudéssemos realmente colar a palavra à coisa, caberia espaço pra desejo? Se não houvesse falta, será que precisaríamos falar?
Já temos posto aqui, então, que o desejo da psicanálise é efeito de uma falta que aparece na própria linguagem, no próprio campo do Outro - para algumas leituras uma falta justamente criadora da própria linguagem - um limite do simbólico, produzido pelo próprio simbólico, nos fazendo entender que o desejo não é de alguém, mas que há desejo, inclusive anterior a esse alguém.
Então como é que fica a singularidade de cada um???
Lacan não constrói uma teoria da singularidade, mas nos dá notícias de que sujeito não possui uma identidade fixa, fechada e imutável, mas é definido como único e irrepetível a partir da lógica e da ética.
A “singularidade” de cada um, a meu ver, fica mais localizável no que podemos entender de sujeito enquanto TEMA de uma análise, e também com a afirmação de que o sujeito é “o que um significante representa para outro significante”, ou ainda, recorrendo a Bakhtin, filósofo da linguagem, a refração daquele signo, que traz consigo um pouco de cada um e que contempla múltiplas possibilidades.
Por fim, a própria falta de um significante, que possibilita inconsciente e produção de sujeito sempre único e irrepetível, é também a falta que faz a metonímia do desejo, de um desejo que é do Outro.
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